Em branco e preto
Episódio 1[1]
Estávamos nos organizando (ou tentando![2]) para sair da sala, era
hora do lanche. Na porta, na frente da turma, S. me agarrava pressionando com
força o queixo contra a minha barriga (como faz desde que a conheci) e eu dizia
que não era para me abraçar assim, que eu já tinha dito que não gostava, que
isso me machucava e que estava com cólica naquele dia...
P. olhou para S[3] e disse:
- Você nem é branca!
Eu, assustada, perguntei:
- E o que tem a ver o fato de ela não ser branca e querer me
apertar? Quer que eu peça para ela te apertar assim?...
Paulo imediatamente respondeu:
- Ela é negra!
E antes que eu disse algo....
- Eu sou negro! – disse pulando!
Eu continuei...
- Então..? Qual é o problema?
Enquanto falava eu o cutucava e o apertava. S começou a apertá-lo
também... Ele ria e pedia para que parássemos..
Encerrei a conversa/brincadeira dizendo
- S é negra, linda e adora apertar as pessoas...
S. diz
- Ai, ai... todo muuundo diz que sou linda!
Episódio 2
P.
canta, canta, canta todo o tempo, quando não canta, fala, fala, fal...
No
início do ano eu tinha dó de pedir que parasse de cantar. A música é tão
presente na vida dele, que até em uma das rodas de conversa sobre o que tinham
feito no fim de semana ele disse para turma
-
Eu cantei!
É
claro que esta frase veio em meio à muitas outras! Ele sempre faz mil coisas no
fim de semana!
Hoje
já não penso duas vezes em pedir que pare de cantar e falar um pouco...
Um
dia depois do “episódio” ocorrido entre
eu, ele e S. ele trabalhava cantando...
-
Eu sou um negro gato...
Episódio 3
Nos
último dias do mês de maio perdemos uma amiga, que foi estudar em outra escola.
Em sua última roda de conversa conosco ela se despedia.
P
disse que agora que Jaque iria embora ele poderia convidar um amigo para fazer
parte da turma. Disse que já tinha falado sobre isso com a mãe dele...
-
O Cadú pode namorar a T., ele é negro!
Tamires
é uma menina da turma, negra.
Eu
perguntei porque Cadú não poderia ter uma namorada branca.
Ele
responde que branco não gosta de feijoada e a Tamires só faria feijoada pra
ele!
Eu,
mais confusa do que nuca com os “links” que eles fazem, perguntei:
-Meu
deus! E o que a feijoada tem a ver com isso?
Outras crianças entraram na
conversa. M. disse que não namoraria quem faz feijoada!
Muitos outros começaram a opinar sobre feijoada, outros já
trouxeram mais ‘pratos’ para a conversa ... Contendo o alvoroço eu disse que
conversaríamos mais sobre isso e prometi leituras de histórias que pudessem nos
ajudar a falar mais sobre nossa cor de
pele e sobre como escolhemos as pessoas que são mais próximas da gente, nossos
amigos, namorados...
Episódio 4
Eu
estava de costas, no fundo da sala arrumando material para a próxima atividade
enquanto as crianças iam sentando e comentando como tinha sido a aula de
Educação Física, muitas delas esbaforidas!
Em
poucos minutos ouço assobios, palmas e
gritos: Ele é preto! É preto! Muitas risadas, em tom de sarro...
Olho
para trás e vejo P de cabeça baixa e sem camisa.
P. ao tirar o moletom, tirou a camiseta junto...
Eu furiosa ‘rasgo’ a sala e chego à frente dela já falando alto e
brava! Disse à eles que tomassem mais cuidado ao se referirem ao corpo dos
colegas, que cor da pele, de olhos, tamanho de nariz, cabelo ou qualquer outro
‘jeito’ de ser das pessoas nunca é motivo de sarro. Disse que nosso corpo conta
a nossa história... e comecei uma
conversa com a pergunta: Por que somos diferentes? De onde vem esta diferença
que existe entre a gente? Por quê tantos tons de pele existem em nossa turma? E
ainda cutuquei, dizendo que para mim era difícil olhar para a turma e dizer
quem não era negro... (todos passam a olhar para os próprios braços...)
P. respondeu que a pele dele veio da África!
Dias depois encontrei com a mãe de P. no portão e pedi que
entrasse um pouco, perguntei rapidamente se alguém da família dela fazia parte
do movimento negro, se a cor da pele era tema de conversa entre eles e
expliquei que este assunto era muito importante e forte para P. Ela disse que a
professora da ‘creche’ fez um trabalho durante o ano passado com este tema e
que ele se compara muito com os colegas e se incomoda por usar óculos (o que eu
já tinha percebido)...
Episódio 5
Tempos
juninos... conversávamos sobre a relação campo-cidade, para muitos a palavra
“roça” era novidade, para outros, parte da própria história de vida. Elaborei
uma atividade de leitura com uma lista de profissões, eles deveriam circular
aquelas fundamentais para comunidades que vivem do trabalho com a terra.
“Profissões”
era também uma palavra nova para muitos. Conversei com eles e elas usando a
típica pergunta: “o que você quer ser quando crescer?”
Muitos meninos querem ser mecânicos, motoristas, pilotos de
fórmula 1, um quer ser pedreiro (“ Quero construir casa, quando passo e vejo,
eu gosto... Eu gosto de ver”), dois querem ser professores... P. quer ser
‘médico de olhos’.
As meninas querem ser médicas, professoras, enfermeiras...só N. e
T. não quiseram dizer nada. Ao perguntar pela terceira vez à T (lembram? Ela é
a menina que poderia ser a namorada do Cadú – amigo de P) se ela não imaginava
o que faria quando adulta, Mn responde ‘em seu lugar’: Empregada!
Eu perguntei por que empregada e ele disse que ela tem cara de
empregada.
Episódio 6
Na
porta da sala, no retorno do recreio, D. pára e começa a tocar os ombros dos
amigos e amigas dizendo:
-
um branco
-
um negro
-
um branco
-
um negro...
Episódio 7
A
prô buscou livros que trouxessem o tema tão presente na turma, de jeitos
diferentes. Na última terça-feira lemos “As tranças de Bintou[4]”, de Sylviane A. Diouf
(texto) e Shane W. Evans (ilustrações), tradução de Charles Cosac.
Durante
a leitura, as crianças reconheceram na personagem principal, características
marcantes de T., incluindo os “birotes” que tanto chateavam a personagem.

Diziam,
carinhosamente, que Bintou parecia T.
Ao
fim da leitura, P. perguntou se não poderíamos fazer com este livro o que
fizemos uma vez com a “Chapeuzinho Vermelho”: improvisar um teatrinho.
Eu disse que a idéia era ótima e que poderíamos fazer mais: conhecer
melhor a história e montar um filminho, filmar a brincadeira.
Muitos comemoravam a idéia, outros não gostaram e entre os
comentários alguns diziam : A T. vai ser a Bintou!
Perguntei se ela toparia. Ela disse que não.
Imediatamente M., branquinho, dos olhos amendoados e castanhos
claros, com cabelo escorridíssimo, diz que gostaria de ser a Bintou!
[1] Os episódios a seguir ocorreram na segunda quinzena do mês de maio
[2] Sair e entrar na sala, montar ou desmontar grupos, começar ou encerrar uma atividade, iniciar uma história é sempre um graaande processo! Tudo acontece ao mesmo tempo, em ações que se multiplicam em segundos, como cantar, cutucar o colega, empurrar, dançar, engatinhar ou imitar o andar de algum bicho. Múltiplas possibilidades de locomoção!
[3] P é um menino e S uma menina, ambos negros.
[4] “Uma menina que vive na África sonha ter tranças longas, enfeitadas com pedras coloridas e conchinhas, como as de sua irmã mais velha e de outras mulheres de seu convívio.
O livro elege a fantasia como valor capaz de recobrar o sentido mais profundo da infância. Suas belas ilustrações e os personagens bem delineados são capazes de trazer ao leitor uma visão da cultura africana, permitindo, assim, repensar também a cultura brasileira”
retirado do site: <http://www.cosacnaify.com.br/loja/detalhes.asp?codigo_produto=479 >
em 13/06/1008.
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Lembrei também do filme:
As aventuras de Azur e Asmar
Azur e Asmar foram criados por Jeanne, mãe de Asmar. Um, louro de olhos azuis; outro, moreno de olhos pretos. Os meninos crescem juntos, como irmãos, encantados pelas histórias sobre a Fada dos Djins. A partida de Jeanne separa os dois meninos abruptamente. Já adultos, eles se reencontram. Dessa vez como rivais na busca pela Fada, que os leva a atravessar o reino encantado do Maghreb, repleto de perigos e aventuras.




