Iniciei este blog no curso Ler e Escrever em 2012. Em 2013, ele se constitui como suporte para registro e reflexões do Curso do PNAIC - Pacto pela Alfabetização na Idade Certa da Rede Municipal de Campinas. O conteúdo inserido em 2012 permanece disponível.
Texto: Para ensinar a ler – Rosaura Soligo Extraído do Módulo 1 – Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – PROFA. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/colet_m1.pdf>. Acesso em ou. de 2012.
Assistims juntas... Vídeo ilustrativo: O que acontece quando lemos
O vídeo foi feito tendo o texto da profa. Rosaura quase que como "roteiro".
O debate foi bom, no sentido de termos associado outras conversas a respeito da importância em considerar o envolvimento da criança com o tema do texto que apresentamos... A importância do sentido que oferecemos à quem lê... O sentido atribuído à leitura altera completamente a compreensão que podemos ter do que lemos...
Leitura complementar: Como o cérebro aprende a ler – Revista Presença Pedagógica
A importância do trabalho com o nome como escrita e leitura de palavras estáveis e significativas para as crianças.
Ler:
SITUAÇÕES DE LEITURA E ESCRITA DE NOMES. IN: material Ler e escrever: Guia de Planejamento e Orientações Didáticas – Professor Alfabetizador – 1º ano – Volume I - p. 35-44.
Resenha do Capítulo “Letramento[s] – práticas de letramento em
diferentes contextos, do livro Letramentos
múltiplos – escola e inclusão social, de Roxane Rojo.
Maria Fernanda Pereira Buciano
Roxane Rojo, autora do texto em questão, apresenta considerações
políticas importantes para o trabalho leitura e escrita na escola.
No
sexto capítulo do livro “Letramentos múltiplos – escola e inclusão social”,
ROJO nos apresenta o termo ‘letramento’ vinculado aos múltiplos sentidos que
uma abordagem mais ‘social’ que cognitiva possa dar ao processo de aquisição da
língua escrita.
[...]
vale a pena insistir na distinção: o termo alfabetismo tem um foco individual,
bastante ditado pelas capacidades e competências (cognitivas e lingüísticas)
escolares e valorizadas de leitura e escrita (letramentos escolares e
acadêmicos), numa perspectiva psicológica, enquanto o termo letramento busca
recobrir os usos e práticas sociais de linguagem que envolvem a escrita de uma
ou de outra maneira, sejam eles valorizados ou não valorizados, locais ou
globais, recobrindo contextos sociais diversos. (ROJO, 2009, p. 98)
Para tanto, traz pesquisadores como
STREET, SOARES e KLEIMAN, diferenciando diferentes modos de compreender o
conceito de letramento, dependendo da época e do contexto social e político.
Destaca da obra desses autores concepções chamadas “autônomas” e/ou “fracas”
assim como as ditas “ideológicas” ou “fortes”. Descrevendo assim como cada um
destes termos vinculados à palavra letramento significa uma forma de
compreender as práticas de leitura como processo de aprendizagem marcado por
diferentes culturas ou como desenvolvimento de competências universais para
adaptação às necessidades do convívio social em um mundo letrado.
A versão “forte” de letramento
(SOARES) próxima à um enfoque “ideológico” (STREET) não traz em si a
preocupação de que o sujeito se “adapte” ao mundo letrado, mas o leia
criticamente, considerando a interpretação que faz daquilo que circula no meio
letrado como um leitura possível entre outras, assim como aquilo que produz
como forma de expressão, oral, escrita, áudio-visual também insere-se em um
mundo diverso e heterogênio.
A autora, em diálogo com HAMILTON,
nos apresenta também, a ideia de que podemos hoje falar em letramentoS.
Considerando que há um conjunto de práticas de leitura e escrita vinculadas às
instituições (de ensino, religiosas...) e outras que circulam no cotidiano,
reguladas por um uso corrente e que em geral são desvalorizadas e sobrevivem
como forma de resistência às primeiras. Estas, chamadas pelo autor de
“dominantes” não acontecem desvinculadas das práticas cotidianas chamadas por
HAMILTON de “vernaculares”, sendo assim interligadas.
Um dos objetivos
da escola é justamente possibilitar que seus alunos possam participar de várias
práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos) na vida
da cidade, de maneira ética, crítica e democrática. (ROJO,
2009, p. 107)
ROJO, ainda em diálogo com HAMILTON,
destaca que na escola desvalorizamos práticas de letramento que não sejam as
dominantes. E nos alerta para as escolhas que fazemos em nossos planejamentos e
na maneira como valorizamos ou não práticas de leitura e escrita correntes fora
da escola, cotidianamente, na vida de nossos estudantes.
Para nos auxiliar no entendimento e
produção de um trabalho pedagógico que considere letramentos múltiplos, a
autora dialoga com Bakhtin em dois conceitos: esferas de atividades e gêneros
discursivos. Assim, cita exemplos de práticas cotidianas que realizamos, por
vezes automaticamente, em diferentes esferas: doméstica, escolar, íntima, de
entretenimento... dentre outras. No decorrer do texto conseguimos então, criar
relações entre o modo como nos relacionamos com outros destas/nestas esferas e
os “tipos relativamente estáveis de enunciados” que produzimos em cada uma
destas, denominados como “gêneros do discurso” por Bakhtin.
Compreendemos
que uma conversa com o namorado no MSN, permite o uso de um vocabulário e modo
de escrever diferente da dissertação entregue no curso de formação, ou do
bilhete deixado para a secretária da empresa em que sua amiga trabalha como
administradora, por exemplo. Podemos também reconhecer textos publicitários e
com uma leitura crítica do que o produz e seus objetivos chegamos até a negá-lo
e criticá-lo. Podemos? Negamos? Como desnaturalizar discursos naturalizados
pela grande mídia? Que “enunciados relativamente estáveis” circula neste ou
naquele meio de comunicação? Quem os produz? Com quais interesses?
Questões suscitadas por ROJO e que a autora
atrela ao chamado letramento crítico, que nos educa para lidarmos com
diferentes textos e seus discursos.
Letramento este que, segundo a autora,
juntamente aos letramentos multissemióticos – leitura e produção de textos em
diversas linguagens- e aos multiculturais – que consideram produções letradas
de diferentes universos sendo estas dominantes ou não-, podem nos ajudar a
responder ao desejo de elaborarmos um modo de trabalho que signifiquemos como
adequado para o mundo contemporâneo.
[...] ao organizar
programas de ensino, o professor pode considerar que gêneros de que esferas ( e
com que práticas letradas, capacidades de leitura e produção agregadas)
devem/podem ser selecionados para abordagem e estudo, organizando uma
progressão curricular. A questão é que , para responder a essa questão, é
preciso ter princípios norteadores. (ROJO, 2009, p.120)
Este é um texto interessante que apresenta
conceitos complexos ligados a uma discussão na qual nos debatemos desde a
década de 1970 no Brasil: como alfabetizar produzindo uma leitura de mundo, que
necessariamente preceda a leitura da palavra? Questão produzidas com palavras
muito usadas pelo mestre Paulo Freire.
Ainda tomando-o como referência para o
estudo do texto de ROJO, digo que alteraria o fim de seu capítulo, onde diz que
precisamos ter ‘princípios norteadores’ para o planejamento de uma progressão
curricular. Eu diria que precisamos reinventar nossos ‘eixos’ buscando
“suleá-los[1]” por
meio de princípios que apontem para onde as respostas das seguintes perguntas
nos levam: A quem servimos quando planejamos nossas aulas? No diálogo com
aqueles que ousamos educar inseridos em tamanha diversidade de produtos
culturais letrados: quais escolhemos produzir (de verdade!) com eles?
Referências:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
ROJO, Roxane. Letramento[s] – práticas de letramento em
diferentes contextos. In Letramentos
múltiplos – escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. (p.95-122)
[1] “‘Suleá-los’: Paulo
Freire usou esse termo (...), chamando a atenção dos leitores (as) para a
conotação ideológica dos termos nortear, norteá-la, nortear-se, orientação,
orientar-se e outras derivações. Norte é Primeiro Mundo. Norte está em cima, na
parte superior, assim Norte deixa "escorrer” o conhecimento que nós do
hemisfério Sul "engolimos sem conferir com o contexto local" (cf.
Márcio D'Olme Campos, "A Arte de Sulear-se”... 1991.). Quem primeiro
alertou Freire sobre a ideologia implícita em tais vocábulos, marcando as
diferenças de níveis de "civilização” e de "cultura”, bem ao gosto
positivista, entre o hemisfério Norte e o Sul, entre o "criador" e o
"imitador” foi o físico supracitado – Márcio Campos – atualmente dedicado
à etnociência, à etnoastronomia e à educação ambiental” (Notade Ana Maria Freire In FREIRE,1992, p.218).
1-Análise dos próprios eventos e práticas de letramento (Rojo,
2009, p. 53)
Durante todo
um dia, anote todos os eventos de letramento de que você participa, isto é,
todas as atividades que desempenha que, de alguma maneira, envolvam o uso da
escrita na leitura ou na produção de textos. Use, para isso, a tabela abaixo.
Veja o exemplo:
Evento
de letramento
Esfera
de atividade
Finalidade
Uso de
leitura e/ou escrita
Retirar
dinheiro no caixa eletrônico
Cotidiana
Abastecer-me de dinheiro para gastos cotidianos
Leitura
/ escrita
Ler
jornal
Cotidiana
Ler manchetes de jornal na busca por algum assunto
interessante para partilhar com alunos e alunas.
Ler
cartaz de divulgação de evento
Cotidiana
Busca de novas informações a respeito do que circula na escola
(assim como faço no mural do prédio...)
Leitura
Leitura
de registros
Escolar
Resgatar trabalho registrado em livro, junto com meus alunos e
alunas.
Leitura
Escrita
de registro
Escolar
Registrar texto coletivo produzido com os alunos.
Leitura e escrita
Leitura
de Lenda
Escolar
Leitura da Lenda “A mula sem cabeça” para meus alunos e
alunas.
Leitura
Comparar
holerites e verificar possíveis erros
Trabalhista documental (?)
Busca pela compreensão de alguns códigos que mudaram no
documento de uma amiga. Conhecer melhor documento de registro do meu
pagamento pelo trabalho que realizo.
Leitura
Assinar
livro-ponto
Trabalhista
Registrar meu comparecimento ao trabalho
Leitura
e escrita
Usar
número de telefone gravado com nome na memória do celular
Cotidiana
Encomendar marmita para o almoço
Leitura
Ler
email
Cotidiana
Buscar tarefas a serem entregues no curso ler e escrever
Leitura
Escrever
reflexões acerca do letramento e alfabetização
Escolar
Produzir material de reflexão a ser partilhado com colegas em
curso de formação
Leitura
e escrita
2-ELABORE UMA RESENHA DE DUAS A TRÊS PÁGINAS pensando em algumas
questões propostas no capítulo “Letramento(s)”: O que significa trabalhar a
leitura e a escrita para o mundo contemporâneo? Como organizar, na escola, a
abordagem de tal multiplicidade de práticas e textos? Que eventos de letramento
e textos selecionar? De que esferas? De que mídias? De quais culturas? Como abordá-los?
Maria Angula era uma menina alegre e viva, filha de um fazendeiro de Cayambe. Era louca por
uma fofoca e vivia fazendo intrigas com os amigos para jogá-los uns contra os outros. Por isso tinha fama de leva-e-traz, linguaruda, e era chamada de moleca fofoqueira.
Assim viveu Maria Angula até os dezesseis anos, decidida a armar confusão entre os vizinhos, sem ter tempo para aprender a cuidar e a preparar pratos saborosos.
Quando Maria Angula se casou, começaram os seus problemas. No primeiro dia, o marido pediu-lhe que fizesse uma sopa de pão com miúdos, mas ela não tinha a menor idéia de como prepará-la.
Queimando as mãos com uma mecha embebida em gordura, acendeu o carvão e levou ao fogo um caldeirão com água, sal e colorau, mas não conseguiu sair disso: não fazia idéia de como continuar Maria lembrou-se então de que na casa vizinha morava dona Mercedes, cozinheira de mão-cheia, e, sem pensar duas vezes, correu até lá.
— Minha cara vizinha, por acaso a senhora sabe fazer sopa de pão com miúdos?
— Claro, dona Maria. É assim: primeiro coloca-se o pão de molho em uma xícara de leite, depois despeja-se este pão no caldo e, antes que ferva, acrescentam-se os miúdos.
— Só isso?
— Só, vizinha.
— Ah — disse Maria Angula —, mas isso eu já sabia!
E voou para a sua cozinha a fim de não esquecer a receita.
No dia seguinte, como o marido lhe pediu que fizesse um ensopado de batatas com toicinho, a história se repetiu:
— Dona Mercedes, a senhora sabe como se faz o ensopado de batatas com toicinho?
E como da outra vez, tão logo a sua boa amiga lhe deu todas as explicações, Maria Angula exclamou:
— Ah! É só? Mas isso eu já sabia! — E correu imediatamente para casa a fim de prepará-lo.
Como isso acontecia todas as manhãs, dona Mercedes acabou se enfezando. Maria Angula vinha sempre com a mesma história: "Ah, é assim que se faz o arroz com carneiro? Mas isso eu já sabia! Ah, é assim que se prepara a dobradinha? Mas isso eu já sabia!". Por isso a mulher decidiu dar-lhe uma lição e, no dia seguinte…
— Dona Mercedinha!
— O que deseja, dona Maria?
— Nada, querida, só que meu marido quer comer no jantar um caldo de tripas e bucho e eu …
— Ah, mas isso é fácil demais! — disse dona Mercedes. E antes que Maria Angula a interrompesse, continuou:
— Veja: vá ao cemitério levando um facão bem afiado. Depois espere chegar o último defunto do dia e, sem que ninguém a veja, retire as tripas e o estômago dele. Ao chegar em casa, lave-os muito bem e cozinhe-os com água, sal e cebolas. Depois que ferver uns dez minutos, acrescente alguns grãos de amendoim e está pronto. É o prato mais saboroso que existe.
— Ah! — disse como sempre Maria Angula. — É só? Mas isso eu já sabia!
E, num piscar de olhos, estava ela no cemitério, esperando pela chegada do defunto mais fresquinho.
Quando já não havia mais ninguém por perto, dirigiu-se em silêncio à tumba escolhida.Tirou a terra que cobria o caixão, levantou a tampa e… Ali estava o pavoroso semblante do defunto! Teve ímpetos de fugir, mas o próprio medo a deteve ali.Tremendo dos pés à cabeça, pegou o facão e cravou-o uma, duas, três vezes na barriga do finado e, com desespero, arrancou-lhe as tripas e o estômago. Então voltou correndo para casa. Logo que conseguiu recuperar a calma, preparou a janta macabra que, sem saber, o marido comeu lambendo-se os beiços.
Nessa mesma noite, enquanto Maria Angula e o marido dormiam, escutaram-se uns gemidos nas redondezas. Ela acordou sobressaltada. O vento zumbia misteriosamente nas janelas, sacudindo-as, e de fora vinham uns ruídos muito estranhos, de meter medo a qualquer um.
De súbito, Maria Angula começou a ouvir um rangido nas escadas. Eram os passos de alguém que subia em direção ao seu quarto, com um andar dificultoso e retumbante, e que se deteve diante da porta. Fez-se um minuto eterno de silêncio e logo depois Maria Angula viu o resplendor fosforescente de um fantasma. Um grito surdo e prolongado paralisou-a.
— Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!
Maria Angula sentou-se na cama, horrorizada, e, com os olhos esbugalhados de tanto medo, viu a porta se abrir, empurrada lentamente por essa figura luminosa e descarnada.
A mulher perdeu a fala. Ali, diante dela, estava o defunto, que avançava mostrando-lhe o seu semblante rígido e o seu ventre esvaziado.
— Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!
Aterrorizada, escondeu-se debaixo das cobertas para não vê-lo, mas imediatamente sentiu umas mãos frias e ossudas puxarem-na pelas pernas e arrastarem-na gritando:
— Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!
Quando Manuel acordou, não encontrou mais a esposa e, muito embora tenha procurado por ela em toda parte, jamais soube do seu paradeiro.
*Extraído de: Contos de assombração, 4ª.ed. Co-edição Latino-Americana. São Paulo,Ática, 1988.“Maria Angula” é um conto da tradição oral equatoriana. Esta versão foi escrita por Jorge Renón de La Torre a partir de um relato que lhe fez Maria Gomez, uma mulher de 70 anos, que vive no povoado de Otán. Jorge Renón de La Torre nasceu em Quito, em 1945, e já publicou contos, fábulas e obras de teatro infantil.
Vídeos sobre a História da Escrita, produzidos pelo Mec, para o programa PROFA e Letra e Vida
Psicogênese da língua escrita, que Emília Ferreiro escreveu com Ana Teberosky em 1979. As crianças chegam à escola sabendo várias coisas sobre a língua escrita será preciso avaliá-la para que o professor trace estratégias para o processo de alfabetização.
“Situações didáticas que a rotina deve contemplar” IN: material Ler e escrever: Guia de Planejamento e Orientações Didáticas – Professor Alfabetizador – 2º ano – Volume I - p. 36 - 37- 38.