Lendo o Fascículo da Unidade 3 do 3o. ano, Encontrei dicas de leituras sobre os assuntos tratados e busquei o que há on line, para fuçar um pouco.
Encontrei este livro:ORTOGRAFIA NA SALA DE AULA
ORG.:Alexsandro da Silva, Artur Gomes de Morais, Kátia Leal Reis de Melo
Deixo aqui um trechinho interessante (da página 21 à 26), onde os autores listam regularidades e irregularidades ortográficas de nossa língua.
Consideremos, afinal, os diferentes tipos de regularidade e irregularidade
de nossa ortografia.
Regularidades diretas:
Nas palavras pote, fivela e bode, a notação dos sons /p/, /b/, /t,/d/, /f/ e /v/ não constitui problema para a maioria dos aprendizes.
Como apenas os grafemas P, B, T, D, F e V podem notar aqueles sons,não existe “competição” com outras letras ou dígrafos. Nesses casos de “regularidade direta”, a notação escrita funciona seguindo as restrições
do próprio sistema de escrita alfabética do português, sem que outros critérios sejam acrescentados.
Além das seis consoantes já citadas, incluímos também nesse grupo a notação dos sons /m/ e /n/ em início de sílaba. Isto é, para escrever o início de palavras como martelo e navio, também não dispomos de outros grafemas em nossa língua, além do M e do N. Em nossa experiência, vemos que, quando os aprendizes iniciantes se confundem com uma das duas letras, ao notar o início de sílabas em que são necessárias, trata-se muito mais de uma questão relativa ao “número de perninhas” que precisam pôr no papel.
Regularidades contextuais:
As regras que, desde os anos 1980, passamos a chamar de “contextuais” (CARRAHER, 1985; LEMLE, 1986) implicam levar em conta a posição da correspondência fonográfica na palavra, a fim de decidir
qual letra é a correta. Enfatizamos que não se trata de considerar o “contexto de significação”, mas, sim, de observar:
a) os grafemas que antecedem ou aparecem após a correspondência fonográfica em questão. Isso ocorre, por exemplo, quando aprendemos por que campo se escreve com M e canto se escreve com N;
b) a posição em que a correspondência fonográfica ocorre no conjunto da palavra (por exemplo, para escrever zebra ou qualquer outra palavra começada com o som /z/, temos que usar a letra Z);
c) a tonicidade da correspondência som-grafia no conjunto da palavra (por exemplo, saci e caqui se escrevem com I no final, por que então o som /i/ é “forte”, enquanto gente e pote se escrevem com E, por que seus sons /i/ finais são átonos).
No QUADRO 1, sintetizamos as principais regularidades de tipo contextual de nossa norma ortográfica.
QUADRO 1
Principais regularidades contextuais do português
- Os empregos de C e QU em palavras como quero, quiabo e coisa.
- Os empregos de G e GU em palavras como guerra, guitarra e gato.
- Os empregos de Z do início de palavras começadas com o som /z/, como zabumba, zebra, zinco, zorra e zumbido.
- O emprego de S em sílabas de início de palavra em que essa letra segue os sons /a/, /o/ e /u/ ou suas formas nasais (como em sapo, santa, soco, sono, surra e suntuoso).
- O emprego de J em sílabas em qualquer posição da palavra em que essa letra segue os sons /a/, /o/ e /u/ ou suas formas nasais (como em jaca, cajá, carijó, juízo e caju).
- Os empregos de R e RR em palavras como rei, porta, carro, honra, prato e careca.
- Os empregos de U notando o som /u/ em sílaba tônica em qualquer posição da palavra e de O notando o mesmo som em sílaba átona final (ex: úlcera, lua, bambu e bambo).
- Os empregos de I notando o som /i/ em sílaba tônica em qualquer posição da palavra e de E notando o mesmo som em sílaba átona final (ex: fígado, bico, caqui e caque).
- Os empregos de M e N nasalizando final de sílabas em palavras como canto e canto.
- Os empregos de A, E, I, O e U em sílabas nasalizadas, que antecedem sílabas começadas por M e N (como em cana, remo, rima, como e duna)
- Os empregos de ÃO, Ã e EM em substantivos e adjetivos terminando em /ãu/, /ã/ e /ey/ como feijão, folgazão, lã, sã, jovem e ontem.
Depois de ter compreendido como funciona o alfabeto e de ter aprendido a maioria dos valores sonoros que a as letras podem assumir em nossa escrita, os alunos recém-alfabetizados tendem a revelar muitas dúvidas sobre questões ortográficas que envolvem as regras contextuais listadas acima. Defendemos, então, o ensino sistemático de todas aquelas regras durante as séries iniciais, a fim de evitar um quadro que consideramos preocupante: parece-nos que, geralmente, a escola tem priorizado o ensino de pouquíssimas regularidades desse tipo, dedicando maior atenção apenas aos usos do M ou N em final de sílaba, ou aos empregos do R ou RR.
Regularidades morfossintáticas1:
Este último grupo de regras de nossa ortografia exige que os aprendizes analisem unidades maiores (morfemas) no interior das palavras, prestando atenção a características gramaticais das mesmas palavras. A partir da internalização dos princípios gerativos (regras) que estamos agora enfocando, podemos grafar com segurança, por exemplo, todos os adjetivos pátrios terminados com a seqüência sonora /eza/, mesmo aqueles que raramente vemos escritos (como balinesa e javanesa) ou os substantivos terminados com o mesmo som, mas derivados de adjetivos (como avareza e presteza). De modo semelhante, se percebemos que o verbo de determinada oração aparece numa flexão do passado e no plural, temos certeza de que se
escreverá com AM no final (por exemplo, na oração “Na semana passada os prefeitos forjicaram novos planos de atuação”).
A título de exemplo, registramos no QUADRO 2 algumas das principais regras morfossintáticas de nossa norma ortográfica.
QUADRO 2
Exemplos de regularidades morfossintáticas do português
FLEXÕES VERBAIS
- O emprego de R nas formas verbais do infinitivo que tendemos a não pronunciar (cantar, comer e dormir).
- O emprego de U nas flexões verbais do passado perfeito do indicativo (cantou, comeu e dormiu).
- O emprego de ÃO nas flexões verbais do futuro do presente do indicativo (cantarão, comerão e dormirão).
- O empregos de AM nas flexões verbais do passado ou do presente pronunciadas /ãw/ átono (sejam, cantam, cantavam, cantariam).
- Noutros textos, usamos o termo “regras morfológicas” ou “morfológicogramaticais” para nos referirmos a esse mesmo tipo de regularidades.
- O emprego de D nas flexões de gerúndio que, em muitas regiões, tende a não ser pronunciado (como em cantando, comendo e dormindo).
- Os empregos de SS nas flexões no imperfeito do subjuntivo (cantasse, comesse, dormisse).
- PALAVRAS FORMADAS POR DERIVAÇÃO LEXICAL
- O emprego de L em coletivos terminados em /aw/ e adjetivos terminados em /aw/, /ew/, /iw/ (como milharal, colegial, possível, sutil).
- O emprego de ÊS e ESA em adjetivos pátrios e relativos a títulos de nobreza (português, portuguesa, marquês, marquesa).
- O emprego de EZ em substantivos derivados como rapidez e surdez.
- O emprego de OSO em adjetivos como gostoso e carinhoso.
- O emprego de ICE no final de substantivos como chatice e doidice.
Essas regularidades de tipo morfossintático envolvem, portanto, morfemas que aparecem na formação de palavras por derivação lexical (e aí as letras que são regradas se encontram, geralmente, no interior
de sufixos) e nas desinências de certas flexões verbais. Se os sufixos do primeiro grupo são muitos e podem ser aprendidos ao longo de todo o ensino fundamental, cremos que as regras envolvidas na notação de
algumas flexões verbais – como as que aparecem no quadro acima – precisam ser sistematicamente estudadas nas séries iniciais, já que ocorrem com muita freqüência nos textos produzidos pelos alunos.
Irregularidades Se vimos, até aqui, que a ortografia de nossa língua tem muitíssimos casos definidos por regras, que, uma vez compreendidas, nos permitem gerar com segurança a notação de correspondências fonográficas em palavras para nós desconhecidas, é preciso reconhecer que há também inúmeros casos de irregularidades. Como dito antes, essas correspondências som-grafia, que não podem ser explicadas por
regras, foram assim fixadas porque se levou em conta a etimologia das palavras (as letras com que eram notadas em suas línguas de origem) ou porque, ao longo da história, determinada “tradição de uso” se
tornou convencional. No QUADRO 3, a título de exemplo, listamos apenas algumas das mais freqüentes dificuldades ortográficas que envolvem irregularidades em nossa língua.
QUADRO 3
Principais irregularidades do português
- a notação do som /s/ com S, C, Z, SS, X, Ç, XC, SC, SÇ e S: por exemplo, em seguro, cidade, assistir, auxílio, açude, exceto, piscina,cresça, exsudar.
- a notação do som /z/ com Z, S e X (gozado, casa, exame).
- a notação do som /S/ com X, CH ou Z (xale, chalé, rapaz).
- a notação do som /g/ com J ou G (gelo, jiló).
- a notação do som /λ / com L ou LH em palavras como família e toalha.
- a notação do som /i/ com I ou E em posição átona não-final (cigarro,seguro).
- a notação do som /u/ com U ou O em posição átona não-final (buraco,bonito).
- o emprego do H em início de palavra (harpa, hoje, humano)
Como o leitor terá percebido, optamos por não incluir casos que remetem a variações na pronúncia de certas palavras, mesmo entre falantes letrados que adotam dialetos “cultos”. É o que ocorre na notação
dos ditongos de palavras como caixa e peixe, cujos sons /i/ nem sempre pronunciamos.
Julgamos, enfim, que uma coisa precisa ficar clara: é impossível não ter dúvidas sobre a ortografia de palavras raras, que pouco lemos e escrevemos, e que contêm correspondências letra-som de tipo irregular.
Assim, precisamos entender que o aprendiz iniciante inevitavelmente cometerá erros desse tipo ao escrever, ainda mais porque para ele muito do que estará escrevendo é “pura novidade”. Nós, adultos letrados, dispomos de um amplo léxico mental, um verdadeiro dicionário em nossa mente, no qual as palavras aparecem isoladas umas das outras, como verbetes escritos. Para quem está aprendendo a escrever, diferentemente, na hora de notar a seqüência sonora / kasamarela/, será preciso compreender que ali existem duas palavras e, provavelmente, gerar a grafia delas sem poder recorrer a algo já registrado no tal léxico mental.

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