Negociações...?
Tentar resgatar alguns ‘porquês’
daquilo que estudamos e como estudamos, tem sido um objetivo constante entre
outros de cada dia de aula.
A sensação de que aquilo que nos
mobiliza coletivamente é sutil e frágil faz com que eu ‘pise em ovos’ por
muitas vezes em sala. Como envolver a turma em um projeto de trabalho coletivo?
Ainda mais quando queremos que seja ‘coletivo-coletivo’ e não apenas o
‘coletivo da prô’! Difícil! Pelo menos para mim, tem sido...A greve, depois o
recesso da gripe tumultuaram o processo...
Ontem, sábado, levei a proposta de
escrita de uma sinopse.
Um dos alunos sugeriu a produção de
uma revista sobre dinossauros, eu propus que alguns textos da revista poderiam
ser sobre os filmes que assistiríamos sobre o tema. Aparentemente, todos
felizes com a idéia: a prô feliz da vida pela possibilidade de pensar em novos
gêneros textuais a apresentar para os pequeninos e estes empolgadíssimos com os
filmes (muitos DVDs ‘piratas’ apareceram no dia seguinte, inclusive “Era do Gelo 3”, ainda em cartaz nos
cinemas!!)
Li sinopse de outro filme conhecido,
conversamos sobre suas características, o que apareceu no texto, o que não foi
dito, o que ficou apenas indicado como possibilidade e começamos a tempestade
de idéias sobre o documentário que assistimos no dia anterior.
Fiquei surpresa com a quantidade de
informações que eles captaram... Com as perguntas que levantavam, detalhes que
eu não atentei...
O envolvimento na discussão sobre o
documentário foi diminuindo na medida em que eu solicitava, de deferentes
maneiras, que pensássemos como escrever, de forma sucinta, sobre aquilo tudo. O
que escolheríamos, como começaríamos?
- Prô, podemos escrever poesia?
- Não Pedro! Já escrevemos poesias ,
vamos aprender um outro jeito de escrever...?
Conversas paralelas...
- Posso ir ao banheiro, prô?
Ao autorizar a saída de um, outros
cinco, subitamente ficaram ‘apertados’...
- Vamos lá gente? Sem enrolação...
Vamos pensar juntos? Vamos?
E o texto começa... Pensei ‘agora
vai’...
- Prô, ta parecendo ‘texto coletivo’,
Disse Laise.
- Mas é!
- Não é de DVD...? Referindo-se à
sinopse.
- É, La, dizemos coletivo por ser
escrito por toda a turma. Você está dizendo dos registros que fazemos no
diário?
- Ah...
Mais buxixos, algumas outras idéias de
frases, bronca aqui, outra ali... Cansei... peguei minha cadeira, coloquei na
frente da sala e sentei, com braços cruzados...
- Psssiu!
-ÔÔu!!! Olha a prô!
Vários deles chamando atenção um do
outro, outras meninas insistiam em frases para o texto, outras trocavam pulseiras,
um rabiscava carteira, outro batucava embaixo dela...Outro, ‘perdidão’, tentava
cortar o cabelo da colega... fora da sua carteira, enquanto eu já estava ali
com minha ‘cara de mau’...
Eu disse que esperaria eles decidirem
trabalhar. Disse que não ficaria falando com duas pessoas, mais o ventilador
(às vezes converso com o ventilador, sabe? Quando ninguém me escuta)
Silênciooo.....Todos me olhando.
Eu disse que o texto não ficaria pronto daquele jeito. Que
eles precisavam colaborar, ou eu daria folhas para que fizessem sozinhos. Que
eu queria que eles aprendessem um outro jeito de escrever sobre um filme, que
não fosse contaaaando toda a história.
- E porque não poesia?
- Já disse que hoje não, Pedro!
- Você não perguntou se a gente queria
escrever isso aí!!! Disse Pedro bravo, cruzando os braços com força.
- Também não perguntei se querem
aprender a ler e escrever!!! Algumas coisas eu digo que tem que aprender e
ponto! Não dá pra fazer só o que vocês querem!!
Algumas pulseiras eram trocadas por
baixo da carteira...
- Agora posso ir no banheiro, prô?
Mafê, agosto de
2009.









